quinta-feira, 17 de abril de 2014

Cultuar Rivail e ocultar Kardec



Alguns pesquisadores espíritas continuam cometendo um ingênuo erro histórico ao confundir Rivail com Allan Kardec. A história de Rivail nada tem a ver com o Espiritismo, a não ser na pura imaginação dessas pessoas.

 Não existe, até agora, nenhum tipo de documento ou evidência que possa fazer essa relação entre duas pessoas tão diferentes: uma que não era espírita e outra que se tornou espírita após os 50 anos de idade. Nada que Kardec faz antes dessa idade tem relação com o Espiritismo e isso o próprio Kardec deixa claro e evidente em Obras Póstumas.
 
Não podemos falsificar a memória do fundador do Espiritismo imaginando coisas, associando ideias sem conexão ou simplesmente tentando dar sentido às coisas que não tem cabimento, simplesmente porque isso satisfaz o preenchimento forçado de algumas lacunas teóricas.
 
A vida de 14 anos de Allan Kardec é muito rica em fatos inexplorados e historicamente compatíveis com o Espiritismo. Porém, ainda não sabemos os motivos que impedem esses pesquisadores a não desvendar esses acontecimentos.
 
Será que essas pesquisas realmente tem como alvo o Espiritismo ou apenas interesses particulares?


sexta-feira, 8 de junho de 2012

Allan Kardec em HQ

Carlos Ferreira, roteirista e diretor de TV, em parceria com o ilustrador Rodrigo Rosa, lançaram em 2011 pela Editora Barba Negra uma biografia de Allan Kardec em HQ. Os dois artistas gaúchos adaptaram a história do Espiritismo para os quadrinhos dando ênfase na transformação do cético Professor Rivail, típico do século XIX, no destemido fundador da Doutrina Espírita. Allan Kardec aparece como intérprete de um novo paradigma filosófico e científico, escritor das obras da codificação desses fenômenos, redator da Revista Espírita e organizador do movimento social espírita. É um importante registro artístico, bem como uma grande contribuição para memória do Espiritismo.






domingo, 8 de janeiro de 2012

Como surgiram as Semanas Espíritas no Brasil

Leopoldo Machado, educador e ativista histórico do movimento espírita


Antenor de Souza, 82 anos, da cidade de Cruzeiro (SP), é uma lenda viva do movimento espírita brasileiro. Não há em todo o país um dirigente espírita de expressão que ele não conheça pessoalmente. Amigo de Leopoldo Machado, a quem se ligou pelos laços afetivos logo que se viram pela primeira vez, Antenor acompanhou o surgimento das Semanas Espíritas e é para falar delas que o ouvimos, na sede da Fundação Espírita Abel Gomes, por ocasião da última Semana Espírita realizada em Astolfo Dutra (MG), em julho último. (N.R.: A entrevista foi concedida, portanto, em julho de 1992.)

O IMORTAL – Quando surgiram as Semanas Espíritas? Antenor – A primeira Semana Espírita foi realizada em 1939 na cidade de Três Rios (RJ). Vários oradores ali compareceram para as suas pregações; depois Três Rios parou com esse movimento. Em 1944, Leopoldo Machado sugeriu que nos reuníssemos e fizéssemos uma espécie de Liga Hanseática, que é, salvo engano, algo parecido com as Nações Unidas de hoje, em que cada um defenderia os interesses dos outros. Leopoldo lançou essa proposta juntamente com a idéia de cada cidade assumir o compromisso de realizar uma Semana Espírita por ano. Então, passaram a ser seis Semanas Espíritas: Cruzeiro (SP), Nova Iguaçu (RJ), Macaé (RJ), Juiz de Fora (MG), Três Rios (RJ) e Barra do Piraí (RJ), que não conseguiu realizá-la. Por causa disso, Barra do Piraí saiu do circuito e entrou Astolfo Dutra (MG). Havia naquela época companheiros que achavam que realizar mais do que duas Semanas Espíritas por ano era um exagero, um absurdo...

O IMORTAL – Que ano foi isso? Antenor – 1944. Depois, em 1945, viemos em companhia de Leopoldo Machado para realizar a Semana Espírita de Juiz de Fora, quando lançamos a pedra fundamental do Instituto Maria. Era o dia 8 de setembro de 1945, salvo engano, e no lançamento da pedra fundamental tomamos conhecimento da turma de Astolfo Dutra (MG), de que eu conhecia algumas pessoas. Mas ficamos intensamente ligados nos dias que passamos juntos na realização da Semana Espírita de Astolfo Dutra, e eu sempre ligado ao Astolfo, ligado à Anita e a outros. (N.R.: Astolfo Olegário de Oliveira e sua esposa Anita Borela de Oliveira são pais do repórter.) Depois, no ano seguinte, aconteceu a primeira Semana Espírita de Astolfo Dutra...

O IMORTAL – Quer dizer que a primeira Semana aqui foi em 1946? Antenor – Foi, e contou com a presença de Chico Xavier e de Leopoldo Machado. Chico recebeu umas mensagens muito bonitas. Depois de um certo tempo, outras cidades começaram a realizar também suas Semanas Espíritas.

O IMORTAL – A primeira Semana Espírita de Astolfo Dutra foi realizada na Fundação Espírita Abel Gomes? Antenor – Sim. Foi realizada aqui neste barracão, que era ainda tosco, não tinha forro, uma construção primitiva. No início, se realizavam aqui as pregações. As reuniões se iniciavam na beira do rio, aqui perto. Embora eu tenha vindo com Leopoldo Machado, ele voltou dois dias depois. Eu permaneci mais dois dias e fui embora.

O IMORTAL – Eram diferentes as Semanas Espíritas daquela época? Antenor – Ah, sim. As nossas Semanas Espíritas tinham um ritmo muito mais fraterno, mais unido... Cantávamos o hino “Alegria Cristã”. Leopoldo preparava peças de teatro para encenação nas Semanas...

O IMORTAL – Leopoldo esteve presente na primeira Semana de Três Rios? Antenor – Parece-me que não. Ele teria que falar lá, mas não tenho certeza se ele foi ou não. A lembrança que tenho é ter ele pedido ao Henrique Andrade que o substituísse.

O IMORTAL – Sabemos então que a idéia das Semanas Espíritas surgiu em Três Rios (RJ), no ano de 1939. Quem a inspirou? Antenor – O Assis Faria, o Cerqueira e outros resolveram fazer um ciclo de palestras, de domingo a domingo.

O IMORTAL – Juiz de Fora parou de realizar suas Semanas Espíritas? Antenor – É. Juiz de Fora não as realiza mais. Realizou durante vários anos, mas não realiza mais.

O IMORTAL – Por que razão, ao contrário de Minas, Rio e Bahia, que realizam Semanas Espíritas memoráveis, nos Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná isso não acontece? Antenor – A razão talvez seja a dificuldade financeira, porque antes nós abrigávamos nos nossos lares quatro, cinco pessoas, e nas instituições também as pessoas ficavam. Havia, então, aquele aconchego. Havia muita alegria porque era uma novidade; naquele momento era a coisa mais importante do Espiritismo. Ninguém tinha realizado coisa parecida até então.

“A FEB foi contra as Semanas Espíritas” *

O IMORTAL – Qual foi a posição da Federação Espírita Brasileira com relação às Semanas Espíritas? Antenor – Sempre contrária.
O IMORTAL – Por quê? Antenor – Porque o deles era um Espiritismo conservador, um Espiritismo que não tinha muita fraternidade e que não realizava um trabalho que devia ser realizado, porque, se é fato e digno de nota que não se deve aceitar, a priori, tudo aquilo que aparece com o rótulo de Espiritismo, também não se pode negar tudo.

O IMORTAL – Depois as coisas parecem ter mudado, não? Antenor – Depois, foi indo, a situação foi mudando. Surgiu o Congresso de Mocidades. Mas nem ao Congresso a FEB deu apoio. Então o Leopoldo pegou um avião e foi a Alagoas e trouxe o presidente da Federativa de lá, que é o Estado menor, para fazer parte da presidência, ele e o Castro. A Federação não dava o menor apoio. Vinícius de Vasconcellos era o intermediário então, o bom-senso encarnado naquela situação.

O IMORTAL – O Leopoldo tentava a aproximação ou se mantinha distante? Antenor – Um dia o telefone tocou: “Antenor, liga pro Batuíra; eu quero falar com ele”. Era o Leopoldo Machado. Eu então liguei pro Batuíra: “Batuíra, o Leopoldo quer falar com você”. O Leopoldo então convidou Batuíra para cortar a fita simbólica de inauguração do Lar de Jesus, no dia 25 de dezembro de 1942. Quer dizer: só se faz um gesto desses para uma pessoa amiga, por quem se tenha muita consideração. Eles falaram, conversaram e Leopoldo lhe disse: “Batuíra, é justo que a gente faça algumas modificações nas coisas da gente, porque tudo evolui, tudo tem que progredir”. Mas o Batuíra ficava sempre naquela situação.

O IMORTAL – Ele aceitou o convite?
Antenor – Aceitou.

O IMORTAL – E foi? Antenor – Foi, e eu estive lá também.

O IMORTAL – Será que essa divergência entre o Leopoldo e o pessoal da FEB não decorria da polêmica sobre Roustaing? Antenor – Em parte sim, pelo seguinte: o Leopoldo sempre foi muito independente. Ele dizia assim: “Primeiro a Doutrina Espírita, e explicarei bem: primeiro foi a Doutrina Espírita que me fez compreender Deus, e como Deus está em primeiro lugar e a Doutrina Espírita colocou-me dentro do conhecimento de Deus, então eu coloco a Doutrina em primeiro lugar”. Mas a FEB gostava daquele cabrestinho de “faça isso, faça aquilo, veja isso, veja aquilo...”, e Leopoldo, espírito independente, acima de tudo realizava o seu trabalho. NOTA: Observe o leitor que o que está sendo relatado pelo senhor Antenor, sobre o "cabresto" é o que tenho apontado como unificação por padronização, o que está muito longe da idéia original de Kardec. Nem sempre as federações estão com a razão, por isso é necessária a participação e controle doutrinário dessas instituições, afinal, elas são formadas por pessoas imperfeitas, como qualquer espírito encarnado neste planeta.

O IMORTAL – O Leopoldo tinha um colégio em Nova Iguaçu. Ele também lecionava? Antenor – Sim, ele não era professor formado, mas dava aula de História e outras coisas mais.

O IMORTAL – A Marília Barbosa também dava aula? Antenor – Sim. Ela era professora formada.


Leopoldo Machado e a ditadura de Vargas

O IMORTAL – Como foi a polêmica com o padre de Nova Iguaçu? Antenor – Isso foi em 1936. O padre Jacó Slater, ao chegar à cidade, perguntou por que a Igreja permanecia vazia, já que Nova Iguaçu não era uma cidade pequena. Aí disseram: “É que existe o professor Leopoldo Machado, que faz uns trabalhos de milagres a semana toda, e trabalha com albergue e tantas outras coisas...” Leopoldo já tinha também idéia de fazer uma casa para crianças. Aí o padre resolveu fazer um desafio ao Leopoldo para uma polêmica. Desafiou o Leopoldo, como presidente do Centro, e o pastor protestante, que declinou, não aceitando o convite. O Leopoldo estava doente do fígado, porque o Leopoldo era muito espírita, mas o fígado era protestante... (risos). Então, ele mandou dizer: “Diga ao padre Jacó Slater que eu aceitarei, com uma condição: não quero que seja no Centro Espírita nem na Igreja”. O local escolhido foi o “Filhos de Iguaçu”, um clube de futebol que abriga mais de duas mil pessoas. Leopoldo, muito pontual, foi o primeiro a chegar.

O IMORTAL – O encontro foi divulgado na cidade? Antenor – Foi divulgado, e o recinto ficou pequeno para conter o povo. Aí o Leopoldo chegou a ficou ali esperando. Daí a pouco chega o padre. Ao serem apresentados, o padre lhe pergunta: “É o senhor o sábio professor Leopoldo Machado?” “Não, sábio é Vossa Reverendíssima; eu sou um simples professor de roça que vim ouvir Vossa Reverendíssima arrasar o Espiritismo.” Aí o padre lhe disse: “Dê-me seu braço para que não escape”. “Se eu quisesse escapar, não teria vindo a Vossa Reverendíssima.” Aí subiram a escada e foram para a mesa. Ficou combinado que quem falasse primeiro falaria mais, o que é um absurdo...

O IMORTAL – Quem começou a falar? Antenor – O padre. Ele começou a falar que a lei do país deveria condenar os espíritas no artigo 157 do Código Penal. Ele falou uma hora. Leopoldo, então, estava familiarizado com aquele assunto. Quando veio sua vez, ele disse: “Meus amigos, nós estamos aqui para uma polêmica, uma troca de idéias, de esclarecimento, mas estamos reunidos em nome de Deus. Por isso eu convido a todos os irmãos presentes a orarmos, a agradecermos aqui neste ambiente social de Nova Iguaçu a Deus. Façamos a prece”. E pediu a Jesus que o adversário dele fosse bem iluminado, esclarecido, para conseguir o seu intento, porque, acima de tudo, ele queria era mais luz sobre o assunto que estavam debatendo. No final, os argumentos de Leopoldo foram tão fortes, que o padre disse que não convinha mais competir. Alguém na platéia gritou: “Três a zero!” Leopoldo disse ao padre: “Meu amigo, dê-me um abraço. Estude o Espiritismo”.

O IMORTAL – Essa polêmica consta de algum livro? Antenor – Consta do livro “Julga, Leitor, Por Ti Mesmo” e “Sensacional Polêmica”, com artigos que o padre escreveu distorcendo os preceitos do Espiritismo e com a resposta de Leopoldo. Leopoldo publicou as duas opiniões para criar justamente o “Julga, Leitor, Por Ti Mesmo”.

O IMORTAL – Já que você residia em Cruzeiro desde os anos 20, como foi seu primeiro contato com os espíritas do Rio e, em especial, com Leopoldo? Antenor – O primeiro contato foi através do jornal (“Sensacional Polêmica em Nova Iguaçu”). Eu lia vários jornais espíritas e comecei a tomar noção do Espiritismo naquele tempo. Leonor, minha esposa, estava tomada por um Espírito e deitava-se assim de costas, e eu via aquilo ali, mas não entendia nada. Achando que devia ser um Espírito, disse: “Saia, vamos comigo...” Depois tomei conhecimento, através de jornais, que o Leopoldo também escrevia livros e lhe escrevi uma carta dando os parabéns pela grande realização em prol da Doutrina e pedindo-lhe que me enviasse o livro, dizendo quanto era para que eu pagasse. Leopoldo mandou o livro e não cobrou nada. Aí começamos a trocar cartas e ele veio a Cruzeiro em 1939. A partir daí continuamos uma amizade cada vez mais intensa.

O IMORTAL – O Leopoldo escrevia em muitos jornais naquela época? Antenor – Sim, o Leopoldo tinha artigos semanais em cinco, seis jornais. Uma vez o Leopoldo leu um artigo de um médico sobre controle de natalidade, que o médico apoiava. Como ninguém respondeu ao médico, Leopoldo resolveu responder ao artigo. Ele dizia que a pessoa nasce e não quer deixar o outro nascer, quer dizer, pratica a imoralidade de aproveitar a oportunidade da reencarnação, mas depois que sai beneficiado aqui, salve-se quem puder... Quer ser beneficiado disso sem levar benefício para os outros também. Aí ele publicou “Sensacional Polêmica” e outra que aconteceu em 1943, mais ou menos, quando Getúlio Vargas determinou o fechamento dos Centros Espíritas.

O IMORTAL – E os Centros foram fechados mesmo? Antenor – Foram fechados, sim. Então, para os Centros funcionarem eram necessárias autorizações, precisavam de carteirinhas... A fiscalização vinha, entrava, assistia à reunião. Aí o Leopoldo começou a trabalhar para resolver o problema, porque não podia acontecer aquilo, o Estado leigo garantia o direito de religião. Felizmente pouco tempo depois a medida foi revogada.

Leopoldo afasta obsessor pelo telefone

“Em Juiz de Fora (MG), Leopoldo Machado tinha preparado uma peça para o encerramento da Semana. Os atores eram os próprios participantes do encontro. Laís, que hoje mora em Brasília (DF), tinha ensaiado um papel importante na peça. Quando chegou o dia da apresentação, minutos antes do horário marcado, eu estava com o Leopoldo quando o telefone tocou: ‘Antenor, o professor está aí?’ Respondi: ‘Está’. ‘Então, por favor, chame-o, que eu quero falar com ele.’ Leopoldo pegou o telefone e ouviu: ‘Professor, a Lalá está batendo os pés aqui, espumando pela boca e dizendo que não vai de maneira alguma à reunião de hoje, porque ela não tem nada com esse programa de hoje, que ela não quer mais mexer com isso...’ Leopoldo lhe pediu: ‘Passe o telefone para ela’. Em seguida, ele disse: ‘Laís? Eu quero falar é com você, seu intruso, saia daí. Terça-feira nós conversaremos. Agora deixe a Laís em paz, que vamos continuar com nosso trabalho’. O Espírito que atormentava Laís era um ex-padre (soubemos na reunião de terça-feira, em que estivemos) que estava desesperado por causa do apogeu do Espiritismo, por causa daquela fraternidade passando pela Igreja de São Mateus, aquele monte de gente andando de braços dados, andando de um lado pro outro, ali perto...”

(Depoimento prestado por Antenor de Souza em sua entrevista.)

Entrevista concedida a Astolfo Olegário de Oliveira Filho, do jornal O Imortal

Enviado por Ivomar Costa: http://centroemovimento.blogspot.com/

domingo, 25 de setembro de 2011

José Herculano Pires

Neste domingo, 25 de setembro, o jornalista e ativista espírita José Herculano Pires, completaria 97 anos se estivesse encarnado. Filósofo de formação e exercício, Herculano produziu dezenas de ensaios, centenas de artigos e também escreveu alguns romances. Sua obra teórica impressiona pela lucidez, didática e fidelidade aos conceitos espíritas, de quem tornou-se um árduo e até intransigente defensor. Ao contrário dos grandes ativistas que se dedicaram aos movimentos práticos, de realização e impacto social e direcionado às massas, Herculano circulava mais no meio institucional das associações, institutos, congressos, semanas espíritas e outros eventos internos do movimento espírita. Talvez sua obra mais significativa não tenha sido os livros, mas a sua atuação profissional na imprensa comum ( e também nos veículos espíritas) onde era muito admirado como pessoa, fazendo uma excelente propaganda do espiritismo através do exemplo moral. Esse tipo de repecussão é o que realmente conta e funciona em termos de doutrina: a exemplificação. A gente sabe disso e no entanto temos a tendência de não valorizar esse aspecto, preferindo as coisas que envaidecem e alimentam o ego. Ao contrário dos admiradores das suas imperfeições, Herculano era simples e vivenciava isso onde estivesse e não somente nos centros espíritas. Isso não acontecia somente com ele. Tivemos essa impressão e depois a alegre constatação quando certa vez ouvimos um antigo jornalista da Folha de São Paulo (que era ateu e marxista ) descrever um outro companheiro com quem havia trabalhado por muitos anos: " Foi o cara mais confiável que eu conheci. Era espírita também".

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Yvone Pereira e Camilo Castelo Branco



Entrevista de Yvonne Pereira sobre: O MARTÍRIO DOS SUICIDAS

Há 80 anos, 1926, um livro começava a ser escrito. Sem precedentes na literatura mediúnica, ele trazia as descrições de um homem e suas vidas, existências que culminaram com uma das piores tragédias que um espírito pode se imputar: o suicídio. Era a trajetória, o martírio, a esperança de recuperação, e a certeza de que para evoluir bastava tentar... O autor era um mundialmente famoso escritor português, Camilo Castelo Branco, que havia se suicidado em 1890, aos 65 anos, por não suportar a cegueira que o acometia e que impedia de dedicar-se às letras, atividade que tanto amava. Como Espírito, escolheu a médium Yvonne Pereira para ditar seu infortúnio e essa opção não foi aleatória, Yvonne era única não só pelas impressionantes faculdades mediúnicas que possuía, mas também por ter sido contemporânea de Camilo em sua existência anterior, em Portugal, e por ter também se suicidado naquela vida. Essa condição foi fundamental para que Yvonne conseguisse repassar aos leitores exatamente o que Camilo desejava. O livro ganhou o nome de Memórias de um Suicida e é considerado o mais importante sobre o assunto, tanto pelas informações que contém quanto pela contribuição em ter livrado muitas pessoas desse ato desesperado. Memórias também foi responsável por trazer ao Brasil o trabalho executado pelo Centro de Valorização da Vida – CVV. Foi a partir da leitura do livro que, em 1962, criaram a instituição que tem finalidade única de prevenir o suicídio.

Comemorando então a importância de Memórias de um Suicida, a Maiêutica deste mês é uma compilação de duas entrevistas inéditas que Yvonne concedeu em 1979 a Mauro e Elisabeth Operti e a Altivo Carismi Pamphiro e que serão publicadas na íntegra no livro Pelos Caminhos da Mediunidade Serena, lançamento das Publicações Lachartre. O livro, organizado pelo biógrafo de Yvonne, Pedro Camilo, vai trazer uma coletânea de entrevistas nas quais a médium discorre sobre suas impressionantes faculdades, seus livros, os Espíritos com os quais conviveu, entre outras curiosidades. Pude lê-lo em primeira mão; uma preciosidade! E garante que as perguntas escolhidas para compor esta matéria são parcelas minúsculas das entrevistas inéditas; de certa forma isso muito me entristece, pois conferi a maravilha do todo. Consola-me, porém, o fato de que muitos irão procurar os livros de Yvonne justamente por vislumbrar seus conhecimentos nestas páginas...

Como conheceu o Espírito Camilo Castelo Branco, autor do livro?

Quando tinha 12 anos vi o Espírito Camilo numa festa de aniversário de uma coleguinha, na cidade de Brasópolis, sul de Minas. Convidada para aquela festinha, fui e vi o Camilo muito triste, encostado numa mesa, com a mão no rosto; mas eu não sabia quem ele era. Mais tarde, observando um romance que uma tia lia, vi o retrato do Camilo e o reconheci. Havia afinidade entre nós. Camilo viveu em Portugal na época de meu suicídio em Lisboa (numa vida anterior a esta). Daí eu supor que o meu pai daquela vida e o Camilo foram contemporâneos, e naturalmente eu também. E como meu pai da vida passada era um intelectual calculo que eles se conheciam. Além disso, ainda havia com o Camilo a afinidade pelo suicídio.

Como se deu o início da produção de Memórias de um Suicida?

Em 1926 assisti a uma sessão na fazenda do presidente do Centro Espírita de Lavras e vi o Camilo, que me deu sua primeira mensagem convidando-me para fazer um livro com ele – os bons Espíritos não impõem, eles convidam o médium. O Camilo começou, então, a me dar as primeiras mensagens no Centro Espírita de lavras. Mais tarde, reconheci que Memórias de um Suicida ficou muito incompleto; eram só as narrativas do Camilo. Tanto que a crítica hoje diz que, nesse livro, há 30% de Camilo e 70% de Leon Denis. De fato é isso mesmo. O livro estava incompleto; não havia explicações doutrinárias, conclusões filosóficas... O Camilo não conhecia a Doutrina Espírita para dizer tudo isso. Ele narrou o que se passou com ele. Esse livro ficou guardado por muito tempo... Comigo, como manuscrito, foram 25 anos, e só o entreguei no fim de 1954.

Por quê?

Bem, eu não o aceitei. Achava que era mistificação – eu não conhecia bem a Doutrina quando comecei a recebê-lo. Nem mesmo O Livro dos Médiuns eu havia estudado – e ele é a base dessa instrução toda sobre a vida no além-túmulo, inclusive da existência de casas, de hospitais etc. Acontece que esse noticiário todo não é novo, porque aquele grande médico sueco, Swedenborg, foi o primeiro que andou falando essas coisas, e com muito detalhe e beleza. Depois disso, as mensagens examinadas pelo Ernesto Bozzano falam também de relatos da vida de além-túmulo que foram recebidos antes da Codificação. Então, só depois que conheci tudo isso é que fiquei descansada. Acredito, porém, que muita coisa na obra é analogia, porque nós não temos palavras para descrever o que há no além-túmulo. Seria preciso que criássemos muitos termos, apreendêssemos mais alguma coisa para poder repetir, traduzir, tudo, tudo quanto os Espíritos querem falar.

Então como fez para escrever o que não pretendia?

O que me valeu, não só nesse livro como nos outros, é que vejo tudo quanto os Espíritos dizem. Vejo coisas que não conheço, muitos aparelhos que eu não acreditava que existissem! Via muitos aparelhos, inclusive para regressão de memória – parece uma cinta de ferro na cabeça! Eu não ficava muito em mim, porque do alto eu via meu corpo lá em baixo, escrevendo o livro. Quando acordava, estava com a cabeça toda dolorida, mas, com uma prece, aquilo tudo desaparecia e eu me sentia bem.

Seria como se você visse antes de escrever, para poder escrever melhor?

Por exemplo: quando escrevi sobre aquele poço, onde ficavam muitos suicidas, eu mesma não sabia o que era aquilo, se era criação mental dos Espíritos-guias ou daquelas mentes alucinadas. No mundo não há expressão para traduzir o sofrimento de um suicida. Olha que eu sofro isso desde pequena... Eu passava as noites inteiras com aquela aflição remanescente do suicídio. Era uma angústia indescritível! Eu senti essa angústia durante grande parte da minha vida e ela só começou a desaparecer depois da publicação do livro. Mas eu sofria muito quando eles me mostravam aquelas cenas todas. Posso descrever até o cheiro do enxofre e daquelas matérias do vulcão. Eu via aquilo escorrer... Via as paredes duras e delas descendo aqueles metais fétidos... Conversando com Chico, ele me disse que aquilo era um vulcão extinto.

Você via isso no momento em que estava escrevendo?

Não, eu vi antes. Desde pequena eu via essas cenas. Também fui suicida e sofri muitíssimo no além.

Então foi uma espécie de recordação?

Sim. Creio que aquela cinta que puseram na minha cabeça era para regressão de memória. Meu espírito foi salvo pelo Charles, mas ele não podia ir lá me retirar daquele antro. Ele serviu-se da linha da umbanda. É por isso que eu respeito a umbanda. Eu vi. Puseram uma corda por onde desciam os Espíritos de umbanda. Quando escrevi o romance, eles me puseram a tal cinta que creio, foi para provocar a regressão de memória. Aquilo doía muito. Então, havia uma cratera da qual fui retirada pelos Espíritos de umbanda através de uma corda. Eu respeito a umbanda por causa disso. Há muita coisa que não está certa na umbanda, não resta a menor dúvida; há muitas mistificações... Mas os Espíritos adiantados se servem desses Espíritos para fazer o bem. Quantas vezes eu fui com o Dr. Bezerra fazer esses trabalhos, na Terra mesmo, ou no astral inferior...

Você sentia tudo?

Minha mediunidade toda é desse tipo positivo, que sofre tudo. Se era afogado ou enforcado, eu chegava a ficar com o pescoço roxo, a carótida crescia, a língua vinha para fora, os olhos arregalavam... Era uma coisa horrorosa! Eu não via como ficava; os companheiros de trabalho me contavam depois. A conseqüência do suicídio por queda de altura é, também, horrorosa, porque ele nunca chega embaixo. Já escrevi isso num livro meu. Ele fica se despenhando toda vida, sentindo que vai morrer e a queda não termina nunca, Léon Denis, que é um dos mais importantes continuadores da obra de Kardec, fala que essa tortura costuma vir com a reencarnação, pois o perispírito traz essas impressões, podendo dar origem a doenças nervosas que a medicina não cura. A única coisa que suaviza, que começa a curar é o Evangelho. Tenho uma sobrinha que todo mundo pensava que estava com indícios de mediunidade, mas ela tinha era obsessão e até convulsões, porque há casos de suicidas reencarnados, que trazem esses desequilíbrios nervosos que parecem epilepsia, mas não são. Para essa minha sobrinha, o Dr. Bezerra de Menezes escreveu uma das melhores mensagens que recebi na vida. Ela foi suicida! Agora se sabe que não há que se desenvolver a mediunidade. Ela não tem a menor condição para isso, pois tem o sistema nervoso completamente enfermo. O cérebro, também, não pode estar bom. Eu, por exemplo, depois que me dediquei muito à Doutrina, tenho que dar graças a Deus, porque me reequilibrei, mas a única coisa que reequilibra é, justamente, o trabalho do Evangelho, o trabalho doutrinário.

Como é o sofrimento de um suicida?

É o sofrimento superlativo e quem não foi suicida não pode saber, não pode fazer uma idéia do que é. Imagine uma aglomeração desses suicidas, que ficam numa confusão horrorosa e não compreendem o que está se passando, porque há vários tipos de suicidas juntos, no mesmo local, cada um com as suas reminiscências e as suas vibrações. Eles ficam desesperados porque se sentem “mortos-vivos”, e são verdadeiros “mortos-vivos” porque se sabe que o fluido vital ainda está neles, demora para se dissipar – podemos ler isso em Gabriel Delanne. Uns ainda se sentem afogando – a gente vê o trecho do mar em que estão se afogando! - ; outros se vêem horrorizados com um trem de ferro; alguns se vêem desesperados com os venenos e outros com tiros no ouvido – e tudo isso na mesma região e ao mesmo tempo. Essas vibrações se chocam; é um verdadeiro inferno, não tenho outra expressão! São impressões que um ser humano que não foi suicida não pode avaliar. Eu compreendi muito bem porque também fui suicida, também estive lá. Como médium de incorporação, recebi tudo quanto foi Espírito suicida, e eu sentia as impressões e o sofrimento deles. Afogamento é a coisa mais horrorosa que se pode sentir. Agora, a morte por trem de ferro é a pior de todas; a pessoa fica numa confusão horrorosa, porque se vê vivo e catando os pedaços do corpo; e cada pedaço que cata ele sente que é seu, que está com ela e ao mesmo tempos não está. É algo que ninguém pode avaliar nem quase compreender.

Como são os hospitais que amparam os suicidas?

São uma beleza mesmo! E note-se que essa esfera onde está o hospital é inferior, não é muito boa não. É outra dimensão, mas por aqui mesmo. Ali há muito sofrimento, mas é tudo muito bonito. Somente não há coloração. É quase tudo branco. Eles têm tudo lá: escadarias, móveis, aventais, flores... Tudo muito bonito. Até hoje eu vou lá. Entro por um corredor, subo uma escada à direita, torno a virar à esquerda. Uma vez eu fui durante o dia e me perguntaram: “Você aqui a esta hora?” Tenho certeza de que, quando eu desencarnar, vou para lá, porque esta minha existência é terapêutica de lá. Ainda sou paciente, estou internada lá. Então não tenho que ir para outra parte; até hoje eu vejo aqueles médicos, toda aquela gente e os reconheço. Reconheço até alguns daqueles personagens já reencarnados.

Você também fala sobre veículos usados para transportar os Espíritos suicidas. Poderia adicionar algum comentário sobre isso, inclusive falar também sobre os animais que você viu lá?

Antes de tudo, é preciso lembrar que quem escreveu o livro não fui eu, foram os Espíritos. Com relação aos meios de transporte, eu os vi de duas espécies. O primeiro era para retirar os Espíritos daquele vale, que é quase a Terra – estou desconfiada de que aquele Vale dos Suicidas não é no espaço coisa nenhuma, é aqui no perímetro da Terra... Quem retirava aqueles Espíritos eram os servidores da colônia, que utilizavam um veículo redondo, cheio de janelinhas ao redor. Era todo acolchoado no interior, muito bonito e cômodo. Os Espíritos sentavam-se e ficavam muito bem acomodados – acredito que esse conforto era, antes de tudo, um primeiro ato de caridade para aqueles Espíritos se consolarem; em cada detalhe percebíamos a ação da misericórdia divina.

Não sei de que material aquilo era feito. Pelos conhecimentos que tenho sobre o mundo espiritual, sei que era alguma matéria, porque coisa imaterial não pode existir, senão seria o nada – a eletricidade, por exemplo, é um formidável elemento, mas não a vemos, vemos só os seus efeitos. Aqueles veículos subiam no ar e rodavam, como dizem que fazem os discos voadores. Quando eles chegavam na entrada da colônia, os passageiros desciam e entravam por um portão. Todos preenchiam uma espécie de ficha, onde se anotava tudo: nome, local em que viveram, gênero do suicídio que tiveram, grau de instrução, orientação religiosa, etc. Dali é que eles seguiam finalmente, para a colônia propriamente dita. Ali era só entrada. Nesse momento é que mudava o meio de transporte, surgiam, então, as carruagens, muito bonitas, muito artísticas. Havia até trenó com cachorros e carruagens puxadas por cavalos muito lindos, todos brancos. Na colônia tudo era branco, até os cavalos. As crinas iam revoltas, agitadas pelo vento.

Eram perispíritos de animais?

Acredito que sim pelos conhecimentos que tenho sobre esse assunto nas obras clássicas da Doutrina. Não nas de Kardec, mas de Gabriel Delanne. Podemos concluir que poderia ser, porque se até as plantas têm perispírito, como muito bem nos indica André Luiz, que dirá um animal, um mamífero. Acredito que fossem os perispíritos dos cavalos. Mas poderia ser, também, uma construção mental dos Espíritos, porque no além-túmulo podemos construir tudo, justamente com esse elemento do mundo espiritual que vem a ser fluido cósmico universal, cujas modificações são quase infinitas, como dizem as obras clássicas. Vi também aves enfeitando os jardins do hospital. Seriam os perispíritos de aves? Isto eu não posso garantir. Não sei. Poderia ser também criação dos Espíritos para enfeitar o ambiente, porque aqueles fundadores da colônia eram verdadeiros artistas; enfeitavam o mais possível. Eu me lembro de ter visto lá, numa enfermaria onde ficou o Camilo Castelo Branco e aqueles seus companheiros, um quadro da Virgem, de Murilo, muito bonito, verdadeira arte. Aquele quadro não era estático, ele se movimentava. E isso o que é? Não tenho como explicar tudo... Pode ser uma analogia. Nós não temos palavras para explicar essas coisas do mundo espiritual. Ainda estamos muito bisonhos nesse sentido.

O livro tem produzido frutos, tanto no sentido de salvar criaturas do suicídio como na criação de obras do movimento espírita...

Sim. E uma dessas obras é o Centro de Valorização da Vida, CVV. Esse movimento é mundial, mas ainda não havia no Brasil. Jacques Conchon, espírita de São Paulo, criou essa instituição influenciado pelo Memórias de um Suicida, por causa do apelo que o livro faz para que os homens criem algo para evitar o suicídio... Eles fazem plantão noite e dia... São verdadeiros abnegados... Jacques Conchon disse que a situação mais difícil de recuperar um candidato a suicídio é o caso de amor, porque aí eles não podem fazer nada. Se o problema é doença, eles tratam, põem em hospital; se é financeiro, alugam casa, compram mobília, arranjam emprego. Tudo isso é causa de suicídio. Já os casos de amor são mais difíceis. Em 15 anos eles perderam dez casos. Eu creio que a proporção é grande. Eram todos casos de amor... Isso talvez se dê porque não se pode controlar o coração de uma pessoa. Se alguém é abandonado pelo outro a quem ama, o que fazer? O remédio para uma pessoa apaixonada que é desprezada é a conformidade com a situação, é voltar-se para Deus ou, então, seguir o conselho do Léon Tolstoi: arranjar um outro amor. Léon Tolstoi dá esse conselho. No livro Sublimação ele fala: “Não vale a pena se matar nem se desesperar; arranja outro amor. Porque o nosso coração não pode viver sem amar e ser amado”.

É da natureza humana...

Não, meu filho, é da natureza divina! Porque Deus é amor e somos descendentes de Deus. É o melhor conselho, o de Tolstoi.

Como enxerga o seu trabalho como médium?

É engano pensar que eu esteja em missão. Não recebi uma missão. Todo meu trabalho foi de reparação dos meus erros. A misericórdia de Deus dá, para grandes criminosos do passado, a mediunidade, para que ele, numa única existência, possa resgatar muita coisa, pois a mediunidade beneficia muita gente! O médium normalmente nem sabe o quanto beneficia. Aliás, o meu dever inadiável, inapelável, era só receber Memórias de um Suicida. Se eu o escrevesse estaria bem, não precisava escrever outro. Mas a misericórdia divina me deu mais, pois até agora tenho mais de dez publicados. Mas o que eu devia fazer era esse, só. Pude fazer mais alguns e, quem sabe, ainda posso publicar outros? Minha atividade mediúnica é um resgate. À proporção que iam saindo os meus livros, a angústia ia amenizando. Hoje eu sou uma criatura completamente equilibrada, não tenho mais essa angústia. Haja o que houver na minha vida, essa angústia não existe mais em mim.


Fonte: Extraído da Revista Universo Espírita – ano de 2006

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Por onde andará Ary Casadio ?

Ary Casadio (de bigode) é o quarto da direita para a esquerda (clique na foto para ampliar)

Nas comemorações dos 60 anos do Pacto Áureo destacam-se nomes conhecidos como Leopoldo Machado e Lins de Vasconcelos e outros mais discretos, senão mais obscuros, como o médium Ary Casadio.

Quem foi esse nome que aparece nos documentos e livros como signatário e participante ativo desses eventos históricos?

Ary Casadio foi um do integrantes da famosa Caravana Fraternidade, organizada como extensão do Pacto Áureo, evento ocorrido no Rio de Janeiro em 1940 como tentativa de unificação nacional do movimento espírita. Casadio foi convidado exatamente por ser reconhecidamente médium de incorporação com alta potencialidade e sintonia. Na biografia publicada no site da FEB consta que ele ingressou no movimento espírita sob o patrocínio de Edgard Armond , mas não cita a fonte da informação. Também nas memórias do Dr. Ary Lex (60 anos de Espiritismo em São Paulo), o destino do médium foi citado com um tom de quem lamenta a fuga de um desertor: “ ...como acontece frequentemente com aqueles que são servidos, abandonou a Federação e mudou-se para Osasco, desaparecendo do meio espírita”.

Na biografia de Armond , redigida pelo próprio e codificada pelo jornalista Valentim Lorenzetti, Ary Casadio é apresentado juntamente com outros médiuns que tiveram participação significativa nos acontecimentos históricos da Federação Espírita do Estado de São Paulo- FEESP, sobretudo na formação do conselho diretor daquela entidade. A origem desse e de outros médiuns foi descrita por Armond numa narrativa na qual podemos perceber a importância daquele contexto e a qualidade dos médiuns que surgiam naquelas circunstâncias.

Mesmo assim, persistem as perguntas que não querem calar e que não tratam somente da vida de alguém especificamente e sim dos médiuns e servidores em geral:

Por onde andará Ary Casadio? O que aconteceu com ele após aqueles episódios? Por que se afastou do meio espírita? Como lidou com a sua mediunidade nesse longo período de anonimato?

“Naqueles primeiros dias, predominavam por toda parte os efeitos físicos e era marcante a falta de médiuns de confiança para o intercâmbio com o Plano Espiritual Superior; atendendo a um pedido, o Espírito Bezerra de Menezes prometeu sanar a lacuna; passados poucos meses, apareceu na Casa um rapaz moreno escuro, que se dizia graxeiro da Sorocabana, em Assis, e médium de incorporação. Submetido a uma prova, satisfez plenamente. Chamava-se Ary Casadio e ficou combinada sua mudança para a capital, sob a proteção da Casa, onde ficou alojado. Mais tarde, trouxe esposa e filhos pequenos e se dedicou inteiramente aos trabalhos da Casa, prestando durante longo tempo ótimos serviços, tanto internos como externos, em ocasiões solenes e em trabalhos práticos, inclusive depois dos congressos de unificação realizados a partir de 1947, acompanhando, inclusive, como médium, a Caravana da Solidariedade, que viajou por vários estados do País, na propaganda da unificação doutrinária. Para melhorar as condições da família, arranjou-se-lhe um emprego no Tribunal de Justiça, como escrevente; bem mais tarde formou-se em Direito e abandonou o serviço por conveniência familiar, mudando-se para Osasco.

Essa carência inicial de médiuns já levara antes à formação do Grupo Razin, com sete membros, com o que o intercâmbio melhorou grandemente. Eis os nomes de seus membros primitivos, além do comandante: Raul de Almeida Pereira, funcionário do IBC, médium de incorporação, vidência e audição; José Quintais, mais tarde funcionário do departamento de projetos da Indústria Villares: vidência, audição, psicografia e desenho mediúnico; Rubens Fortes, oficial reformado do Exército: incorporação consciente; Altair Branco, engenheiro;Luiz Verri, cabeleireiro de senhoras: vidência e audição; Paulo Vergueiro Lopes de Leão, pintor, diretor da Escola de Belas Artes.

O Grupo funcionou bem até 1950, data em que foi dissolvido por não haver concordado com a criação da Escola de Aprendizes do Evangelho, exceto dois membros: Paulo Vergueiro eCarlos Jordão, que fora convidado e passou a fazer parte do Grupo nos últimos dois anos.

Durante suas reuniões, duas coisas importantes aconteceram:

1) Manifestou-se pela primeira vez a entidade feminina designada pelo nome de "Castelã", que a partir de então, dispensou ao Grupo valiosíssima colaboração e 12 anos mais tarde, em 1953, pelo médium Divaldo, se identificou como protetora pessoal do comandante, tendo sido, na Itália papal, rainha de Nápoles, em 1481, como Margarida de Médicis.

2) Em uma de suas reuniões, em 1941, surgiu de improviso um médium desconhecido, jovem, que se dizia médico e se chama Élio. Sua trajetória foi rápida porém proveitosa. Acercou-se da reunião, no saguão do salão superior, sentou-se ao lado do comandante, ouviu durante alguns momentos uma mensagem que estava sendo transmitida e interrompeu o trabalho, convocando o comandante para uma reunião urgente. Atendendo ao solicitado, a reunião foi decidida e feita na Escola de Belas Artes, à rua Onze de Agosto, onde não haveria interrupções; acompanharam o comandante o engenheiro Altair, Luiz Verri, Lopes de Leão, diretor da Escola, e o médium. Foi nesta imprevista reunião que foram feitos os primeiros contatos com Ismael, o preposto de Jesus para a condução espiritual do Brasil, o qual, incorporado no referido médium e sob controle do vidente Verri, transmitiu suas primeiras instruções ao comandante, investindo-o na tarefa de dirigir a Federação, estabelecendo a prevalência do Espiritismo Evangélico e construindo, oportunamente, as bases para o êxito desse transcendente empreendimento espiritual”.


*Foto do arquivo digital da FERN disponibilizado por Maria da Conceição Queiroz; legenda com informações de Antonio Cesar Perri de Carvalho em artigo extraído da revista Reformador (FEB)

A Caravana da Fraternidade na capital do Rio Grande do Norte em 1949. Pela ordem da esquerda para a direita: Leopoldo Machado (calça branca e paletó escuro)- ; Luiz Burgos Filho (sem paletó); Abdias Antônio de Oliveira (paletó branco) – vice-presidente da FERN; Francisco Spinelli (paletó escuro); Major Felipe Soares (atrás, aparece só a cabeça) – presidente do Centro Espírita Victor Hugo – RN; Carlos Jordão da Silva (paletó branco e segurando chapéu); Severino Rodrigues Viana; Sebastião Félix de Araújo, ex-presidente da FERN, pioneiro da Unificação no Estado; Ary Casadio (com bigode); Major Alfredo Lemos da Silva; Sebastião Avelino de Macedo (trabalhador vinculado à orientação de juventudes); Hilpert Viana – trabalhador do Centro Espírita Victor Hugo – RN.


terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Delanne, por Canuto Abreu

Não foi Gabriel Delanne um filósofo. Não foi um religioso. Não foi mesmo um deísta. Não era sequer um cristão. Foi o maior dos cientistas do Espiritismo. Seu ministério foi “O Espiritismo em Face da Ciência”, “O Fenômeno Espirítico”, “As Investigações Sobre a Mediunidade”, “As Aparições Materializadas dos Vivos e dos Mortos”, “A Reencarnação” e “A Evolução Anímica” Sua vida foi um constante “Escutemos os Mortos!”.

Mentalidade politécnica, afeiçoada desde cedo aos estudos exatos, às pesquisas cientificas, às observações frias, às deduções rigorosas, ao horror do erro, da ilusão e da fraude — foi o chefe supremo da parte experimental do Espiritismo, a qual deu o maior desenvolvimento ainda não suplantado.

Ninguém reuniu até hoje mais vasto e variado repertório de fenômenos espiríticos. Competente, perito, cioso da sua responsabilidade, dedicou a existência, de 1883 a 1926, ininterruptamente, à propaganda pelos fatos. A veneração que o mundo espírita lhe tributava conquistou-a ele pelo merecimento, numa luta ingente contra os numerosos opositores que a Doutrina levantava por onde ele a vulgarizava. Para fazer a prova de que a alma humana existe durante a vida e depois da morte, não empregou jamais uma palavra de religião ou de filosofia, e assim fez notar (1). A seu ver, “os argumentos metafísicos só convencem a convencidos; são atos de fé, ou de logomaquia, desprovidos de qualquer fundamento real” (2).

Fez uma escola. Compreendendo nitidamente a tarefa que lhe coubera na consolidação da Doutrina, fez discípulos que vêm acompanhando os progressos da ciência, em todas as suas províncias, no empenho de trazer para o Espiritismo todos os elementos úteis à sua evolução. Para esta escola “c'est Ia recheche expérimentale qui, en avançant lentement mais progressivement, dans l'explication des choses aboutira nécessairement un jour à rendre démontrable incontestablement à tous ce qui n'est encore que présumable sur I'apparence des faits”. (Andry-Bourgeois, in Révue Métapsychique n.º 2, 1926). (3)

Minha retentiva é demasiado precária. Esqueço facilmente tudo. Fatos importantes dissipam-se, esfumam-se, esvaecem. E graças a Deus! Mas, não me olvidei nunca daquela tarde invernosa de novembro, em que penetrei a primeira vez o Parque de Montmorancy. Um chalé à direita entre árvores, a era trepando pelas paredes. Vidraças fechadas e cortinas amarelas. Vozes lá dentro. Minha pancada hesitante e receosa. Mademoiselle que abre e vai anunciar-me ao apóstolo, deixando-me ali diante daquele homem forte, gordo, ar carregado e perscrutador, que era o Comandante Darget (4).

E meu nome declinado na sala à esquerda por voz venerável:

— “Monsieur le docteur Abreu, donnez-vous la peine d'entrer”. (5)

E diante de mim, que entro timidamente, um homem de estatura pequena, curvado sobre bengalas, rosto delicado, cabelos grisalhos e rentes, frontal de grandes entradas, nariz fino e meio curvo, bigode amarelado de fumo e em desalinho sobre um sorriso acolhedor e permanente. Tenta avançar cambaleante. Mas, apoiado já em meus braços, deixa-se cair na poltrona, enquanto Mademoiselle lhe recobre com a manta azul, que rolara, as pernas trêmulas, os pés inchados e metidos em sapatões de lã.

Tenho ainda gravado na mente o seu olhar: o olho direito mais claro que o esquerdo, as pupilas dilatadas, a nuvem da cegueira sobre a íris.

Reminiscência!


* * *


Que hei de transcrever aqui do meu velho caderno de viagem, tão cheio de coisas?

Nasceu Delanne em Paris, no dia 23 de março de 1857. Seu pai, Alexandre Delanne, falecido em 1901, era comerciante e frequentava Allan Kardec, em cujos funerais, à beira do túmulo, falou em nome dos espíritas dos centros longínquos. Sua progenitora, Alexandrina Delanne, foi um dos médiuns do fundador do Espiritismo e faleceu nonagenária (1801-1894), conservando lucidez de espírito e firme crença até o derradeiro alento. Delanne recebeu, portanto, educação espírita no lar.

— Conheceu Kardec?

— Perfeitamente, respondeu-me. Acariciava-me e, duma feita, pondo-me ao joelho e abraçando-me pela cintura, profetizou que eu seria um sacerdote do Espiritismo. Não fui bem um “sacerdote”, mas tenho a presunção que fiz o possível em minhas forças para bem servir à Doutrina, no setor que me coube.

— E que vem dilatando e iluminando.

— Não. Nada tenho dilatado. Tudo que há, é de Kardec. Apenas tenho feito constatações. Mostrei-as em meus livros e demonstro-as na prática diária. Nada acrescento. Penso que não virá tão cedo a este mundo quem possa dilatar e iluminar mais o que nos legou o Mestre.

— A propósito: sua opinião sobre a obra de Roustaing?

— Você fala de Roustaing, de Bordéus? (6)

— Sim, do autor de “Os Quatro Evangelhos”.

— Um grande e sincero adepto do Espiritismo. Discordo inteiramente do ponto de vista que adotou nessa obra. Acho pouco prováveis os seus fundamentos e completamente desnecessários.

— No Brasil, é obra das mais estimadas.

— Questão de afinidade de sentimentos. Os países da antiga colonização espanhola possuem alma mística e religiosa (7). Todas as doutrinas de fé aí podem ter notável crescimento. Na França, onde o povo é mais céptico, Roustaing não teve muitos adeptos e penso que está esquecido. Já o leu você?

— Sim. Como aplicação do Espiritismo, acho-a digna de meditação. Quero, entretanto, registrar sua valiosa opinião.

— Dou-a com sinceridade e não é a primeira vez que me interpelam a respeito. Não tenho, porém, competência para opinar. É um trabalho de fé. É uma obra de espíritos. Não discuto, se é verdade ou não, o que se revela sobre Jesus. A mim se me afigura irreal o Cristo que Roustaing descreve. O assunto, aliás, não me interessa. Penso que não temos base de certeza para optar entre Cristo dos Evangelhos e da tradição, e o Jesus de Roustaing.

— Mas, sua opinião sobre Jesus?

— Um chefe espiritual.


* * *

Delanne está nos seus livros e nas suas revistas. Não diferia como homem. Mentalidade positivista, sua obra é positivista. Moço ainda, com 26 anos, abandonou a profissão de engenheiro, em que principiara, para se dedicar integralmente á propaganda do Espiritismo. Paupérrimo, quando o conheci vivia dos editores de seus livros, dos assinantes de sua revista e dos amigos. Paralítico e cego. Até o fim, perfeitamente lúcido. Seu último trabalho foi o discurso que ditou e foi lido na sessão inaugural do Congresso Espírita Internacional, em 7 de setembro de 1925 (8). Nesse discurso, canto do cisne, ele se mostra, talvez pela primeira vez, o espírita completo: deísta, animista, reencarnacionista. “Appelons sur nos travaux la bénédiction divine, puisque c'est en elle que reside toute puissance, toute science, toute justice, toute bonté et tout amour”. (9)

Desencarnou em 15 de fevereiro de 1926 como um justo, rodeado de amigos e discípulos, na mesma casa onde o conheci.

OBRAS DE GABRIEL DELANNE

– Roustaing devant le Spiritisme. Artigo de estreia na revista “Spiritisme”, set. 1883, Paris. – Recherches sur la médiumnité. Paris, 1884. – L'Âme est immortelle. Paris, 1886.

– Le Spiritisme devant la science. Paris, 1889.

– Le Phénomène spirite. Paris, 1891. – L'Évolution animique. París, 1895.

– Les Apparitions matérialisées des vivants et des morts, 2 vols. I

– Les fantômes des vivants; II – Les apparitions des morts. Paris, 1909.

– La réincarnation. Paris, 1924.

– Discours no 1.° Congresso das federações espíritas do mundo. Paris, 1925. Último trabalho.


NOTAS

(1) “Les Apparitions materialisées”, T. 1º, p.2.

(2) Op. Cit. T. 2º, p. 824.

(3) "Esta é uma pesquisa experimental que, avançando lenta mas progressivamente, oferece, necessariamente, explicações sobre as coisas, que um dia se tornarão incontestavelmente demonstráveis em tudo o que ainda é apenas presumível sob a aparências dos fatos." (Nota do PENSE).

(4) O pesquisador espírita comandante Louis Darget (1847-1923), de Tours, amigo de Gabriel Delanne e Léon Denis, realizou pesquisas sobre os raios V (eflúvios ódicos) e fotografias dos espíritos. Foi pioneiro nas pesquisas de efluviografia e captação, em chapas fotográficas, da configuração dos eflúvios ódicos. Obteve várias fotografias de eflúvios humanos e de fotografias do pensamento, antecipando as experiências com a Kirliangrafia. Publicou diversos artigos em revistas espíritas sob o pseudônimo de Comandante Tégrad. (Nota do PENSE).

(5) "Senhor doutor Abreu, tenha a bondade de entrar". (Nota do PENSE).

(6) Jean-Baptiste Roustaing (1805-1879), advogado e líder espírita de Bordéus, França, contemporâneo de Allan Kardec, publicou a obra Os Quatro Evangelhos (1866), compilação em três volumes de mensagens mediúnicas obtidas pela médium belga Émilie Collignon. Obra religiosa, de nítida influência católica, fundamenta-se na tese de que Jesus era um agênere, não possuía corpo físico, mas um corpo fluídico, causando o primeiro cisma no Espiritismo francês. No Brasil, a Federação Espírita Brasileira (FEB) adotou a obra de Roustaing, provocando assim uma cisão quase irreversível no movimento espírita brasileiro. (Nota do PENSE).

(7) Foi assim que ele falou.

(8) O 3º Congresso Internacional de Espiritismo foi realizado em Paris, França, de 6 a 13 de setembro de 1925, sob a coordenação de Jean Meyer (1855-1931), pesquisador e escritor espírita suíço. Devido à dificuldade de locomoção, Gabriel Delanne não pôde comparecer ao evento. Atendendo a pedidos de Meyer e do espírito Jerônimo de Praga, Léon Denis, mesmo em idade avançada, participa do congresso, do qual foi presidente de honra.

(9) “Compte rendu du Congres de 1925”, edição Jean Meyer, p. 25. "Nós consideramos nosso trabalho uma bênção divina, pois é aí que reside toda a potência, toda ciência, toda justiça, toda bondade e todo amor." (Nota complementar do PENSE).


Fonte: "Metapsíquica” – revista bimestral da Sociedade Metapsíquica de São Paulo (SMSP), ano I - nº 1 - abril/maio de 1936. Texto finalizado em 1º de julho de 1927.

Publicado por: PENSE - Pensamento Social Espírita



Nota do site PENSE:

Silvino Canuto Abreu (1892-1980), erudito, tradutor e escritor espírita, profundo conhecedor da história do Espiritismo, adquiriu vários documentos de Allan Kardec quando esteve na França, antes da II Guerra Mundial. Era formado em farmácia, medicina e direito. Foi fundador e presidente da Associação Paulista de Homeopatia. Escreveu os livros: O Livro dos Espíritos e sua Tradição Histórica e Lendária; O Evangelho por Fora; Bezerra de Menezes: Subsídios para a História do Espiritismo no Brasil até o ano de 1895; O Primeiro Livro dos Espíritos de Allan Kardec - 1857, edição bilingue.