terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Delanne, por Canuto Abreu

Não foi Gabriel Delanne um filósofo. Não foi um religioso. Não foi mesmo um deísta. Não era sequer um cristão. Foi o maior dos cientistas do Espiritismo. Seu ministério foi “O Espiritismo em Face da Ciência”, “O Fenômeno Espirítico”, “As Investigações Sobre a Mediunidade”, “As Aparições Materializadas dos Vivos e dos Mortos”, “A Reencarnação” e “A Evolução Anímica” Sua vida foi um constante “Escutemos os Mortos!”.

Mentalidade politécnica, afeiçoada desde cedo aos estudos exatos, às pesquisas cientificas, às observações frias, às deduções rigorosas, ao horror do erro, da ilusão e da fraude — foi o chefe supremo da parte experimental do Espiritismo, a qual deu o maior desenvolvimento ainda não suplantado.

Ninguém reuniu até hoje mais vasto e variado repertório de fenômenos espiríticos. Competente, perito, cioso da sua responsabilidade, dedicou a existência, de 1883 a 1926, ininterruptamente, à propaganda pelos fatos. A veneração que o mundo espírita lhe tributava conquistou-a ele pelo merecimento, numa luta ingente contra os numerosos opositores que a Doutrina levantava por onde ele a vulgarizava. Para fazer a prova de que a alma humana existe durante a vida e depois da morte, não empregou jamais uma palavra de religião ou de filosofia, e assim fez notar (1). A seu ver, “os argumentos metafísicos só convencem a convencidos; são atos de fé, ou de logomaquia, desprovidos de qualquer fundamento real” (2).

Fez uma escola. Compreendendo nitidamente a tarefa que lhe coubera na consolidação da Doutrina, fez discípulos que vêm acompanhando os progressos da ciência, em todas as suas províncias, no empenho de trazer para o Espiritismo todos os elementos úteis à sua evolução. Para esta escola “c'est Ia recheche expérimentale qui, en avançant lentement mais progressivement, dans l'explication des choses aboutira nécessairement un jour à rendre démontrable incontestablement à tous ce qui n'est encore que présumable sur I'apparence des faits”. (Andry-Bourgeois, in Révue Métapsychique n.º 2, 1926). (3)

Minha retentiva é demasiado precária. Esqueço facilmente tudo. Fatos importantes dissipam-se, esfumam-se, esvaecem. E graças a Deus! Mas, não me olvidei nunca daquela tarde invernosa de novembro, em que penetrei a primeira vez o Parque de Montmorancy. Um chalé à direita entre árvores, a era trepando pelas paredes. Vidraças fechadas e cortinas amarelas. Vozes lá dentro. Minha pancada hesitante e receosa. Mademoiselle que abre e vai anunciar-me ao apóstolo, deixando-me ali diante daquele homem forte, gordo, ar carregado e perscrutador, que era o Comandante Darget (4).

E meu nome declinado na sala à esquerda por voz venerável:

— “Monsieur le docteur Abreu, donnez-vous la peine d'entrer”. (5)

E diante de mim, que entro timidamente, um homem de estatura pequena, curvado sobre bengalas, rosto delicado, cabelos grisalhos e rentes, frontal de grandes entradas, nariz fino e meio curvo, bigode amarelado de fumo e em desalinho sobre um sorriso acolhedor e permanente. Tenta avançar cambaleante. Mas, apoiado já em meus braços, deixa-se cair na poltrona, enquanto Mademoiselle lhe recobre com a manta azul, que rolara, as pernas trêmulas, os pés inchados e metidos em sapatões de lã.

Tenho ainda gravado na mente o seu olhar: o olho direito mais claro que o esquerdo, as pupilas dilatadas, a nuvem da cegueira sobre a íris.

Reminiscência!


* * *


Que hei de transcrever aqui do meu velho caderno de viagem, tão cheio de coisas?

Nasceu Delanne em Paris, no dia 23 de março de 1857. Seu pai, Alexandre Delanne, falecido em 1901, era comerciante e frequentava Allan Kardec, em cujos funerais, à beira do túmulo, falou em nome dos espíritas dos centros longínquos. Sua progenitora, Alexandrina Delanne, foi um dos médiuns do fundador do Espiritismo e faleceu nonagenária (1801-1894), conservando lucidez de espírito e firme crença até o derradeiro alento. Delanne recebeu, portanto, educação espírita no lar.

— Conheceu Kardec?

— Perfeitamente, respondeu-me. Acariciava-me e, duma feita, pondo-me ao joelho e abraçando-me pela cintura, profetizou que eu seria um sacerdote do Espiritismo. Não fui bem um “sacerdote”, mas tenho a presunção que fiz o possível em minhas forças para bem servir à Doutrina, no setor que me coube.

— E que vem dilatando e iluminando.

— Não. Nada tenho dilatado. Tudo que há, é de Kardec. Apenas tenho feito constatações. Mostrei-as em meus livros e demonstro-as na prática diária. Nada acrescento. Penso que não virá tão cedo a este mundo quem possa dilatar e iluminar mais o que nos legou o Mestre.

— A propósito: sua opinião sobre a obra de Roustaing?

— Você fala de Roustaing, de Bordéus? (6)

— Sim, do autor de “Os Quatro Evangelhos”.

— Um grande e sincero adepto do Espiritismo. Discordo inteiramente do ponto de vista que adotou nessa obra. Acho pouco prováveis os seus fundamentos e completamente desnecessários.

— No Brasil, é obra das mais estimadas.

— Questão de afinidade de sentimentos. Os países da antiga colonização espanhola possuem alma mística e religiosa (7). Todas as doutrinas de fé aí podem ter notável crescimento. Na França, onde o povo é mais céptico, Roustaing não teve muitos adeptos e penso que está esquecido. Já o leu você?

— Sim. Como aplicação do Espiritismo, acho-a digna de meditação. Quero, entretanto, registrar sua valiosa opinião.

— Dou-a com sinceridade e não é a primeira vez que me interpelam a respeito. Não tenho, porém, competência para opinar. É um trabalho de fé. É uma obra de espíritos. Não discuto, se é verdade ou não, o que se revela sobre Jesus. A mim se me afigura irreal o Cristo que Roustaing descreve. O assunto, aliás, não me interessa. Penso que não temos base de certeza para optar entre Cristo dos Evangelhos e da tradição, e o Jesus de Roustaing.

— Mas, sua opinião sobre Jesus?

— Um chefe espiritual.


* * *

Delanne está nos seus livros e nas suas revistas. Não diferia como homem. Mentalidade positivista, sua obra é positivista. Moço ainda, com 26 anos, abandonou a profissão de engenheiro, em que principiara, para se dedicar integralmente á propaganda do Espiritismo. Paupérrimo, quando o conheci vivia dos editores de seus livros, dos assinantes de sua revista e dos amigos. Paralítico e cego. Até o fim, perfeitamente lúcido. Seu último trabalho foi o discurso que ditou e foi lido na sessão inaugural do Congresso Espírita Internacional, em 7 de setembro de 1925 (8). Nesse discurso, canto do cisne, ele se mostra, talvez pela primeira vez, o espírita completo: deísta, animista, reencarnacionista. “Appelons sur nos travaux la bénédiction divine, puisque c'est en elle que reside toute puissance, toute science, toute justice, toute bonté et tout amour”. (9)

Desencarnou em 15 de fevereiro de 1926 como um justo, rodeado de amigos e discípulos, na mesma casa onde o conheci.

OBRAS DE GABRIEL DELANNE

– Roustaing devant le Spiritisme. Artigo de estreia na revista “Spiritisme”, set. 1883, Paris. – Recherches sur la médiumnité. Paris, 1884. – L'Âme est immortelle. Paris, 1886.

– Le Spiritisme devant la science. Paris, 1889.

– Le Phénomène spirite. Paris, 1891. – L'Évolution animique. París, 1895.

– Les Apparitions matérialisées des vivants et des morts, 2 vols. I

– Les fantômes des vivants; II – Les apparitions des morts. Paris, 1909.

– La réincarnation. Paris, 1924.

– Discours no 1.° Congresso das federações espíritas do mundo. Paris, 1925. Último trabalho.


NOTAS

(1) “Les Apparitions materialisées”, T. 1º, p.2.

(2) Op. Cit. T. 2º, p. 824.

(3) "Esta é uma pesquisa experimental que, avançando lenta mas progressivamente, oferece, necessariamente, explicações sobre as coisas, que um dia se tornarão incontestavelmente demonstráveis em tudo o que ainda é apenas presumível sob a aparências dos fatos." (Nota do PENSE).

(4) O pesquisador espírita comandante Louis Darget (1847-1923), de Tours, amigo de Gabriel Delanne e Léon Denis, realizou pesquisas sobre os raios V (eflúvios ódicos) e fotografias dos espíritos. Foi pioneiro nas pesquisas de efluviografia e captação, em chapas fotográficas, da configuração dos eflúvios ódicos. Obteve várias fotografias de eflúvios humanos e de fotografias do pensamento, antecipando as experiências com a Kirliangrafia. Publicou diversos artigos em revistas espíritas sob o pseudônimo de Comandante Tégrad. (Nota do PENSE).

(5) "Senhor doutor Abreu, tenha a bondade de entrar". (Nota do PENSE).

(6) Jean-Baptiste Roustaing (1805-1879), advogado e líder espírita de Bordéus, França, contemporâneo de Allan Kardec, publicou a obra Os Quatro Evangelhos (1866), compilação em três volumes de mensagens mediúnicas obtidas pela médium belga Émilie Collignon. Obra religiosa, de nítida influência católica, fundamenta-se na tese de que Jesus era um agênere, não possuía corpo físico, mas um corpo fluídico, causando o primeiro cisma no Espiritismo francês. No Brasil, a Federação Espírita Brasileira (FEB) adotou a obra de Roustaing, provocando assim uma cisão quase irreversível no movimento espírita brasileiro. (Nota do PENSE).

(7) Foi assim que ele falou.

(8) O 3º Congresso Internacional de Espiritismo foi realizado em Paris, França, de 6 a 13 de setembro de 1925, sob a coordenação de Jean Meyer (1855-1931), pesquisador e escritor espírita suíço. Devido à dificuldade de locomoção, Gabriel Delanne não pôde comparecer ao evento. Atendendo a pedidos de Meyer e do espírito Jerônimo de Praga, Léon Denis, mesmo em idade avançada, participa do congresso, do qual foi presidente de honra.

(9) “Compte rendu du Congres de 1925”, edição Jean Meyer, p. 25. "Nós consideramos nosso trabalho uma bênção divina, pois é aí que reside toda a potência, toda ciência, toda justiça, toda bondade e todo amor." (Nota complementar do PENSE).


Fonte: "Metapsíquica” – revista bimestral da Sociedade Metapsíquica de São Paulo (SMSP), ano I - nº 1 - abril/maio de 1936. Texto finalizado em 1º de julho de 1927.

Publicado por: PENSE - Pensamento Social Espírita



Nota do site PENSE:

Silvino Canuto Abreu (1892-1980), erudito, tradutor e escritor espírita, profundo conhecedor da história do Espiritismo, adquiriu vários documentos de Allan Kardec quando esteve na França, antes da II Guerra Mundial. Era formado em farmácia, medicina e direito. Foi fundador e presidente da Associação Paulista de Homeopatia. Escreveu os livros: O Livro dos Espíritos e sua Tradição Histórica e Lendária; O Evangelho por Fora; Bezerra de Menezes: Subsídios para a História do Espiritismo no Brasil até o ano de 1895; O Primeiro Livro dos Espíritos de Allan Kardec - 1857, edição bilingue.

domingo, 4 de julho de 2010

Maison des Spirites

Atual rua Copernico, nº8



Cartaz da Maison des Spirites, sede adquirida e adminstrada por Jean Meyer durante duas décadas. Localizado no número 8 da rue Copernic, o prédio continua arquitetonicamente intacto na capital parisiente, conforme mostra acima as imagens do Google.

Silvino Canuto Abreu, pesquisador brasileiro que copiou e adquiriu alguns importantes documentos sobre a história do Espiritismo durante sua visita a Maison des Spirites no final da década de 1930.

Jean Meyer e o casal Arthur Conan Doyle durante uma vista a Maison des Spirites na década de 1920.

Jean Meyer, fundador da Maison des Espirites e responsável pelo resgate e ressurgimento da Revue Spirite no início do Século XX .








Jean Mayer, discípulo de Allan Kardec.

Filantropo, escritor, cientista e filósofo suíço, naturalizado francês. Natural de Rinken, Suíça, de uma família modesta de agricultores; reencarnou no dia 8 de julho de 1855. Erradicou-se para a França aos 18 anos de idade, adquirindo nacionalidade francesa após ter criado, com o seu trabalho, uma situação de primeiro plano no comércio e, mais tarde, na exploração vinícola; desencarnou em Paris, no dia 13 de abril de 1931, após longos meses de sofrimento, paciente e corajosamente suportados.

Em 1914, Jean Meyer, então abastado insdustrial e comerciante suíço, considerado por suas obras de flinatropia, conheceu o Espiritismo por intermédio de sua prima Mme. Demare. Da mesma forma como acontecera com Camille Flammarion, Jean Meyer se tornou espírita lendo as obras de Allan Kardec e de León Denis. Ele descobriu nelas uma nova filosofia plena de lógica e de raciocínio, até então desconhecida, tornando-se um dos mais ilustres espíritas.

La Revue Spirite

A publicação de “ La Revue Spirite ” tinha sido interrompida com o número de agosto/setembro de 1915; espírita atuante e, pretendendo assegurar a sobrevivência desse órgão, criado por Allan Kardec, Jean Meyer assumiu a sua direção em 1916, fazendo-a reaparecer em janeiro de 1917.

Em 1918, Jean Meyer adquiriu os direitos de “ La Revue Spirite ”, de Paul Leymarie, assegurando, assim, a sobrevivência desse órgão. Paul Leymarie, porém, permaneceu na gerência de Revista até o ano de 1924, tendo como secretário Kermário, pseudônimo de um poeta.

A revista deixa a livraria. Jean Meyer adquiriu uma residência no número 8 da rue Copernic, a que deu nome de “Maison des Spirites”.

“ La Revue Spirite ” reunia, nesse tempo, as mais destacadas personalidades do Espiritismo: Gabriel Delanne, Leon Denis, Camille Flammarion, Ernesto Bozzano, A.Bénezech, Marcel Laurent, M. Cassiopée, General Abaut, Dr. Gustave Geley, Marcel Semezies, Pascal y Matilde Forthuny, Louis Gastin, Henri Sausse, Paul Bodier, Sir. Arthur Conan Doyle, Santoliquido, Rocco, León Chevreuil, Hubert Forestier e outros.

Em 1920 o tamanho da revista era de 25,5cm x 16,5cm e em 1923 era mensal, com 48 páginas. Jean Meyer exerceu a direção da Revue até 1931, quando desencarnou.

Unión Spirite Française

Em 1918, Jean Meyer, em sua residência na Vila Valrose, em Paris, fundou a Unión Spirite Française e, com Gabriel Delanne, fundo a revista “Survie de l’Ame Humanine”, com redação no número 28 da Avenue de Sycomores, Ville Mont-Morency, Paris.

Gabriel Delanne, pouco antes de seu desencarne, ocorrido em 15 de fevereiro de 1926, faz um acordo com Jean Meyer, em virtude do qual funde a resvista que dirigia, fundada em 1896.

Ainda em 1918, Jean Meyer adquiriu um belo hotel, onde foi instalada a Unión Spirite Française, com a qual também colaborara para dar nascimento, e que, a 23 de abril de 1919, foi reconhecido pelo Governo francês. O primeiro presidente deste instituto foi o Dr. Roque Santoliquido, professor, deputado e Ministro da Saúde Pública, ocupando a vice-presidência o não menos notável Dr. Gustave Geley.

Jean Meyer fundo também a editora Jean Meyer Editeur, criada com seu nome para possibilitar a publicação e propagação dos livros espíritas e metapsíquicos.

Em 1922, a “Librarie des Sciences Psychologiques”, por conta da Fundação Jean Meyer, a “Bibliothèque de Philosofie Spiritualiste Moderne et dês Sciences Psychiques (BPS)”, também fundada por Jean Meyer, lançaram “Editions Mille”, uma verdadeira operação de divulgação, a preços populares, das obras de Allan Kardec, de autores clássicos e contemporâneos. Somente de O Livro dos Espíritos, a tiragem foi de 70.000 exemplares.

Em 1924, no Congresso de Liège, Jean Meyer foi eleito vice-presidente da “Fédération Spirite Internationale”. Seu aluno e continuador foi Hubert Forestier.

Em 1925, na “Maison dês Spirites” se realizou o Congresso Mundial de Paris, tendo sido Jean Meyer o seu organizador e Leon Denis o presidente, que teve ao seu lado Arthur Conan Doyle, ilustre escritor britânico. Este congresso foi pleno de sucesso e o de maior repercussão.

Jean Meyer foi membro de várias entidades científicas da França e de outros países. Em 1928, com um fundo de 4 milhões de francos, constituiu a “Societé d”Etudes Métapsychiques”. No Congresso Espírita de Londres, realizado em 1928, juntamente com Arthur Conan Doyle, de quem era muito amigo, pronunciou as seguintes palavras: “É pela união da Ciência com o Espiritismo, com essa fé racional que ele nos dá, auxiliando-se um ao outro, que chegaremos a uma compreensão cada vez mais justa e sempre mais elevada da obra de Deus”.

Meyer despendeu parte de sua fortuna na divulgação do espiritismo através das Edições Meyer e na sustentação da Unión Spirite Française. Teve em Gustave Geley um companheiro com o qual estudou muito e desenvolveu persistentes investigações.

Em 13 de abril de 1931, desencarnou. Foi um digno e destacado continuador da obra de Allan Kardec.

Fonte: Revista ICESP